Figura 1. Representação do coração, em corte seccional, demonstrando as diferentes cavidades e estruturas cardíacas, bem como o caminho esquemático dos impulsos elétricos (em amarelo) que fazem o coração bater.
    Figura 1. Representação do coração, em corte seccional, demonstrando as diferentes cavidades e estruturas cardíacas, bem como o caminho esquemático dos impulsos elétricos (em amarelo) que fazem o coração bater.

Como já explanado previamente em artigos anteriores, o coração é um músculo que trabalha como uma bomba sincronizada. Divide-se em quatro câmaras — dois átrios na parte superior do coração e dois ventrículos (Figura 1). O coração bate (se contrai) quando um impulso elétrico do “marca-passo natural” do coração chamado nó sinoatrial é deflagrado e percorre o circuito. A sequência normal, chamada ritmo sinusal, começa no átrio direito, propaga-se por todo o átrio e para o nó AV (atrioventricular) (Figuras 1 e 2). Do nó AV, os impulsos elétricos descem para um grupo de fibras especializadas (sistema His-Purkinje) e para todas as partes dos ventrículos. Este trajeto exato precisa ser seguido para que o coração bombeie adequadamente e de forma bem sincronizada.

Quando o impulso elétrico é transmitido normalmente, o coração bombeia e bate num ritmo regular. Um coração em condições normais bate 60 a 100 vezes por minuto, em repouso.

O termo arritmia se refere a qualquer alteração da sequência normal de impulsos elétricos, causando ritmos cardíacos anormais. Isto pode fazer que o coração bombeie com menor eficiência. Algumas arritmias são tão curtas – por exemplo, uma pausa temporária ou batimento prematuro ou "extrassístole" – que a frequência cardíaca ou ritmo, de maneira geral, não é muito afetado. Mas se as arritmias forem do tipo prolongadas, poderão fazer que o coração fique lento demais ou rápido demais, ou mesmo deixar o ritmo cardíaco descoordenado, e consequentemente causar sintomas.

O termo taquicardia se refere a uma frequência cardíaca de mais de 100 batimentos por minuto. Bradicardia descreve uma frequência abaixo de 50 batimentos por minuto.

Um simples eletrocardiograma (ECG) em repouso (Figura 2) pode ajudar a fazer o diagnóstico, mas em geral são necessários outros exames complementares como o Holter de ECG de 24h, o monitor de eventos (Looper), ou eletrocardiograma de esforço, entre outros.

Taquicardia - batimento cardíaco rápido

Uma frequência cardíaca rápida é chamada de taquicardia ou taquiarritmias. A taquicardia pode ocorrer como uma resposta normal do coração (por exemplo durante exercício ou estresse emocional) e não se tratar de arritmia. Por outro lado, as taquiarritmias (arritmias com elevada frequência cardíaca) caem em duas categorias principais: a taquicardia ventricular (que envolve somente os ventrículos) e a taquicardia supraventricular (que envolve os átrios e os ventrículos).

O que causa taquiarritmia?

Sob certas condições, a taxa de descargas automáticas do tecido de marca-passo pode ficar rápida demais. Se tal “foco” anormal descarregar mais rápido do que o nó sinusal, poderá assumir o controle do ritmo cardíaco e causar taquicardia (atrial). Em outro tipo de condução anormal, os impulsos se envolvem numa sequência semelhante a um carrossel (ou looping). Este processo, chamado reentrada, é causa comum de taquiarritmias. Independentemente de sua causa, as taquiarritmias são classificadas por onde se originam. As taquicardias supraventriculares se originam mais alto no coração — nas câmaras superiores (átrios) ou na região média (nó AV ou exatamente na parte inicial do sistema de His-Purkinje, Figura 2). Dentre as taquiarritmias atriais, uma das mais comuns (acima dos 60 anos) é a chamada fibrilação atrial, que apresenta batimentos irregulares, desencadeados por impulsos caóticos nos átrios. De outro modo, as taquicardias ventriculares se iniciam nos ventrículos (câmaras inferiores do coração). O contexto clínico sempre deve ser avaliado e considerado na gênese das arritmias.

Quais são os sintomas e tratamentos para taquiarritmia?

Os batimentos cardíacos rápidos podem produzir sintomas de palpitações, sensação rápida do coração, tonturas, sudorese, palidez, sensação de desmaio iminente e mesmo desmaio. Os batimentos cardíacos podem ter um ritmo regular ou irregular.

Para as taquicardias atriais em geral o tratamento visa controlar os fatores desencadeantes e o uso de medicação. Para as taquicardias supraventriculares por reentrada nodal o tratamento medicamentoso pode ser eficaz, mas o tratamento por ablação com cateter é uma opção conforme orientação médica. A fibrilação atrial – a qual apresenta ritmo irregular - pode ser revertida (farmacologicamente ou com cardioversão elétrica), ou apenas "controlada" (i.e., controle da frequência cardíaca), ou ainda se realizar ablação (através de intervenção com cateter no coração), conforme conduta clínica.

O batimento cardíaco rápido nos ventrículos — a chamada taquicardia ventricular — pode colocar a vida em risco quando tem duração prolongada. O distúrbio de ritmo cardíaco mais grave é a fibrilação ventricular, no qual as câmaras inferiores tem ritmo caótico, e o coração não consegue bombear efetivamente o sangue. Seguem-se o colapso e a morte súbita, a menos que seja imediatamente providenciado auxílio de profissional de saúde. Se tratadas em tempo, a taquicardia ventricular sustentada e a fibrilação ventricular podem ser convertidas em ritmo normal com o choque elétrico. As taquiarritmias ventriculares podem ser prevenidas com medicamentos ou mesmo por ablação (intervenção via cateter no foco dos distúrbios de ritmo). Uma outra abordagem para essas arritmias ventriculares de alto risco é o uso de um dispositivo chamado cardiodesfibrilador implantável – para quando a situação cardiológica seja grave com a arritmia frequente e potencialmente fatal – o qual fica implantado no organismo e dispara automaticamente quando necessário.

Deve-se salientar que todo o contexto clínico deve ser avaliado e considerado para a conduta e tratamento das taquiarritmias.

Bradicardia - batimento cardíaco lento

Uma frequência cardíaca “lenta demais” é chamada bradicardia. “Lento demais” é algo que depende também da idade e da atividade física da pessoa (p.ex., indivíduos muito bem condicionados fisicamente tendem a ter a frequência cardíaca normalmente mais baixa, a chamada bradicardia sinusal).

Bradiarritmia é um distúrbio do ritmo cardíaco com a frequência lenta. Estes distúrbios podem ocorrer em algum nível do sistema de condução elétrica do coração (por ex., disfunção do nó sinusal, bloqueio [parcial ou total] do nó atrioventricular, Figura 2). Os sintomas e as repercussões clínicas é que vão definir a conduta e tratamento.

Figura 2. Representacão do coração, em corte seccional, com suas diferentes cavidades e estruturas, demonstrando o caminho esquemático dos impulsos elétricos (de cima para baixo – nó sinusal, nó atrioventricular, ramos direito e esquerdo e fibras de Pukinge) e a representação correspondente de cada fase do impulso no traçado do eletrocardiograma.
Figura 2. Representacão do coração, em corte seccional, com suas diferentes cavidades e estruturas, demonstrando o caminho esquemático dos impulsos elétricos (de cima para baixo – nó sinusal, nó atrioventricular, ramos direito e esquerdo e fibras de Pukinge) e a representação correspondente de cada fase do impulso no traçado do eletrocardiograma.

Quais são os sintomas e tratamentos para bradiarritmia?

Um ritmo cardíaco anormalmente lento pode causar cansaço, tonturas, palidez, sensação de desmaio iminente e desmaios (podendo inclusive ser fatal). Na vigência de uma bradiarritmia avançada, o quadro pode ser controlado pela implantação de um marca-passo eletrônico sob a pele (conectado ao coração por fio ou eletrodo) para manter o ritmo cardíaco de forma apropriada, quando houver uma indicação clínica adequada.

Vale ressaltar que existem bradiarritmias menos graves (que não necessitam de marca-passo definitivo) ou de causas reversíveis (por ex.: secundarias a uso de determinadas medicações, intoxicações etc).

A urgência e a conduta clinica dependerá do quadro clínico apresentado, perfil de risco e da avaliação médica apropriada.

Em resumo, ter um pouco de entendimento a respeito das arritmias pode ajuda-lo a alguma tomada de decisão mais rápida, com a busca apropriada de atendimento médico, assim como maior aderência às orientações clínicas.

(adaptado de American Heart Association)