Riscos da profissão...
    

Por 30 anos fui designer e ourives, um trabalho árduo, mas minha paixão. Se clicarem nos sites de busca por "ourives de bancada", irão conhecer a arte que acompanhou todas as civilizações. Precisamos sentir os metais, tocar as texturas, suas limalhas, gemas, lixas, soldas, ceras e ácidos. Há um envolvimento pessoal no processo. Por mais de dez anos, só eu rodinava em meu ateliê. Esta sempre foi uma tarefa que não deleguei justamente pelo risco em manusear substâncias tóxicas. O banho de ródio, por exemplo, é feito pelo processo de eletrólise, no qual se deposita o raro metal sobre a joia usando uma máscara com carvão ou algo mais específico.

Em 2011, comecei a sentir constantemente fortes dores de cabeça, desconforto físico, fígado alterado, hipertensão, dores musculares e lesão crônica nos tendões. A partir daí, comecei a perder os movimentos dos braços e apresentei uma alteração degenerativa da coluna vertebral. Por um período, fiquei incapaz de qualquer esforço. Por mais de dois anos, tive constante acompanhamento médico, sem melhora do quadro.

Após um longo período de tratamento, resolvi consultar uma terapeuta em Goiânia. Ela me fez várias perguntas mas, em nenhum momento, abordamos minha profissão. Esta profissional é uma terapeuta especializada em biorressonância, especialidade pouco difundida no Brasil, mas muito usada em países como Alemanha, Áustria, Suíça e Portugal. 

Depois da solicitação de exames, o resultado apontou que eu estava contaminada por ródio. Fui transferida para o IMEG, Instituto de Medicina do Estado de Goiás, e tratada por cardiologista e nutrólogo. Após mais de 50 exames e mineralograma, o resultado foi a alta contaminação de metais pesados como prata, ouro e ródio. 

Essa contaminação é muito comum aos ourives, especialmente, no momento da soldagem, quando é liberada uma fumaça altamente tóxica. Eu sempre soldei por horas! À medida que iniciei o processo da descontaminação, a cada dia me sentia melhor. Continuei desenvolvendo as joias que sempre amei fazer até o dia em que resolvi fazer umas peças de cobre. Por dias as soldei. Então, ao me levantar às 5 horas para pegar um voo para Uberlândia, comecei a tossir sangue e sentir dormência nas pernas: vários vasos pulmonares haviam se rompido...

Novamente internada, dois dias depois soube que havia sobrevivido a uma embolia pulmonar por alergia dos mesmos tóxicos. Foram seis meses para voltar a ter uma vida relativamente normal e um ano com recaídas constantes. Hoje, com bronquiectasia cística irreversível, encerrei minha carreira de ourives. Nunca mais me sentei numa bancada. Atuo como designer de projetos e passei a pesquisar e ouvir relatos de colegas de profissão, bem como fazer a relação das mortes de muitos deles a tudo que passei. Infelizmente, esses profissionais não tiveram acesso ao tipo de tratamento que tive e à prevenção, que poderia ter evitado tantas casos.

Depois dessa dolorosa experiência, sugiro aos profissionais que tenham um local para trabalho separado do convívio familiar e que façam exames periódicos para detecção do índice de contaminação. Assim, creio que será possível continuarem o ofício por mais tempo que eu.