Quimio cérebro e quimioneblina: as alterações da quimioterapia podem permanecer a longo prazo
   Fabiola LaTorre escreveu um livro durante o tratamento do câncer e, atualmente, está escrevendo o segundo sobre a vida pós-câncer.

Muitas pessoas tiveram com dúvidas quando postei nos meus stories sobre memória em relação a quimio. Acharam até que eu estava em tratamento novamente. Mas, não graças a Deus. Então resolvi, fazer esse post.

Vulgarmente apelidado de “quimio-cérebro” ou quimioneblina pode afetar significativamente a qualidade de vida dos sobreviventes, mesmo alguns anos após terem vencido a câncer. É uma sequela direta do próprio tratamento, um efeito que cerca de 80% dos pacientes notam.

O câncer é definido como uma batalha. Mas, para muitos, o câncer é uma verdadeira prova de resistência na qual não se trata apenas de quimioterapia. É necessário cirurgia, além de  outros tratamentos farmacológicos, a radioterapia, a imunoterapia, etc.

A agressividade dos tratamentos a que são sujeitos muitos doentes oncológicos requer uma enorme dose de força física e psicológica, apoio familiar e uma abordagem positiva e esperança dia-a-dia. 

O quimio-cérebro ou “quimioneblina” é descrito como um dano nas funções cognitivas e cerebrais após o tratamento do câncer, podendo afetar a procura de palavras, gestão de tempo, capacidade de gerir múltiplas tarefas simultaneamente, a memória, concentração e aritmética. É comum queixas de memória e concentração, junto com um “sentimento que a cabeça não funcionando bem pelos pacientes que passam pelo processo de quimioterapia.

Quimio cérebro e quimioneblina: as alterações da quimioterapia podem permanecer a longo prazo
   Fabiola LaTorre durante o tratamento: as alterações da quimioterapia podem permanecer a longo prazo

O New York Times publicou um artigo onde cerca de 15% dos doentes sofrem os efeitos prolongados do que é medicamente conhecido por danos cognitivos induzidos por quimioterapia. O estudo liderado por Michelle C. Janelsins, do Wilmot Cancer Institute da University of Rochester Medical Center em Nova Iorque, comparou um total de 581 pacientes de câncer de mama com 364 mulheres saudáveis. As mulheres que fizeram o tratamento reconheceram dificuldades de memória e de pensamento no passado. Essa alteração foi significativa desde antes de iniciar a quimioterapia até cerca de um ano depois de terminar o ciclo de tratamentos.

  • Os efeitos e características:
  • Os domínios cognitivos que mais costumam ser afetados pela quimioterapia são a memória visual e verbal, a atenção e o funcionamento psicomotor.
  • Os tratamentos mais longos e intensos deixam maiores sequelas. O efeito é cumulativo.
  • Os pacientes costumam ter problemas para recordar datas, compromissos pendentes, problemas para se lembrar de palavras comuns e concluir frases.
  • É comum que tenham problemas para realizar várias tarefas ao mesmo tempo: falar por telefone e encher um copo de água ou se orientar enquanto caminha.
  • Os pacientes parecem estar mais desorganizados e lentos na hora de reagir. Com a quimio, o mundo se torna mais complexo e eles mais “apagados” na hora de reagir a coisas antes tão comuns e familiares.

Mas existem tratamentos e estratégias para reverter seu efeito:

Sobreviver ao câncer é uma enorme conquista, é felicidade e esperança.

E após esta etapa, iniciamos uma nova, que faz com que nos reinterpretamos.

Uma etapa na qual o cuidado conosco é mais importante do que nunca, na qual busca-se enfoques clínicos, naturais, psicológicos e inclusive espirituais que possam ajudar a reverter os efeitos psicológicos e emocionais da doença e do próprio tratamento.

Para garantir que a mente está descansada e na sua máxima funcionalidade, recomenda-se a prática de atividades de interiorização como o ioga ou a meditação, alem da execução de práticas cognitivas como desafios matemáticos para manter a mente ativa.

Eu concluí o meu mestrado 20 dias após a minha cirurgia. Não parei minha mente.

Além disso, está provado que o exercício físico aumenta a memória e a capacidade de tomar decisões. Os peritos aconselham a prática de exercício físico leve a moderado, se tal for possível.

No pós-tratamento, o caminho para a recuperação e a aprendizagem de como lidar com os efeitos secundários são longos. Peça ajuda aos que te rodeiam e não seja dura consigo mesma para evitar frustrações.

Reconhecer e focar-se nas capacidades pessoais é vital para que um doente com quimio-cérebro possa regressar à vida do dia-a-dia.      

Segredinhos para melhorar a função cerebral durante o tratamento:

É possível reverter a sequela que a quimioterapia deixa no cérebro é simples?

Resposta:  é possível.

Mas é preciso: tempo, esforço e um enfoque multidisciplinar.

Dispomos de múltiplas opções e aplicativos em nossos celulares e computadores através dos quais podemos exercitar a memória e a concentração. Todos eles são de grande utilidade.

Faça uso de agendas para que o tempo e as atividades possam ser estruturadas.

  • Você fará e melhor as coisas de forma sequencial e pouco a pouco, antes de recorrer à multitarefa.
  • O acúmulo de atividades intensifica a ansiedade e a baixa autoeficácia.

Por outro lado, e não menos importante, você precisa também de um adequado apoio familiar e social.

As pessoas ao seu redor devem ser próximas e compreensivas, além de conhecerem os efeitos associados ao quimio-cérebro.

Para concluir, o mais recomendável, o mais lógico e esperado é que VOCÊ tenha acesso a uma adequada reabilitação cognitiva especializada nesta condição clínica.

Quimio cérebro e quimioneblina: as alterações da quimioterapia podem permanecer a longo prazo
   Fabiola LaTorre concluiu o mestrado ao final do tratamento.

Fontes

  1. Cancer Research UK
  2. World Health Organisation
  3. The New York Times
  4. James Siberski, Evelyn Shatil, Carol Siberski, Margie Eckroth-Bucher, Aubrey French, Sara Horton, Rachel F. Loefflad, Phillip Rouse. Computer-Based Cognitive Training for Individuals With Intellectual and Developmental Disabilities: Pilot Study - The American Journal of Alzheimer’s Disease & Other Dementias 2014; doi: 10.1177/1533317514539376
  5. Preiss M, Shatil E, Cermakova R, Cimermannova D, Flesher I (2013) Personalized cognitive training in unipolar and bipolar disorder: a study of cognitive functioning. Frontiers in Human Neuroscience doi: 10.3389/fnhum.2013.00108.
  6. Shatil E, Metzer A, Horvitz O, Miller A. - Home-based personalized cognitive training in MS patients: A study of adherence and cognitive performance - NeuroRehabilitation 2010; 26:143-53.
  7. Evelyn Shatil, Jaroslava Mikulecká, Francesco Bellotti, Vladimír Burěs - Novel Television-Based Cognitive Training Improves Working Memory and Executive Function - PLoS ONE July 03, 2014. 10.1371/journal.pone.0101472
  8. The Huffington Post
  9. http://www.fredhutch.org/
  10. https://amenteemaravilhosa.com.br/quimio-cerebro-quimioterapia/