“A doença é apenas um ponto de partida e a cada dia vai perdendo sua importância no cenário.
Importa o doente, suas necessidades, seus anseios, seus amores, sua vida.
Esta é a mudança mais importante na relação entre o profissional de saúde, o paciente e sua família.
Esta mudança se aprende com o tempo”.

A importância do papel do esposo durante o tratamento

Questão delicada essa e de extrema importância. A mulher traz consigo a essência do cuidar, faz parte de sua natureza, é comum vermos as esposas ou companheiras, mães ou filhas acompanharem seus maridos, pais, companheiros, filhos nas inúmeras visitas ao médico e nas sessões de quimioterapia ou radioterapia, nos exames de rotina e nas várias situações as quais o paciente é submetido desde a busca pelo diagnóstico e durante as fases do tratamento. Nunca vi uma esposa abandonar seu marido por conta de um câncer, já o inverso é frequente. Não raro vemos maridos se separarem da esposa após um diagnóstico de câncer ou durante seu tratamento. Em muitos casos, para a mulher, há uma mutilação causada pelo câncer, mastectomias, perda dos cabelos, mutilações das mais diversas, às vezes com bom resultado de reconstrução, outras nem tanto. É um luto antecipatório vivido tanto por parte da paciente quanto dos integrantes de seu cenário doméstico onde o marido tem papel fundamental. Luto antecipatório entendido como a vivência de várias perdas físicas e emocionais durante uma fase de tratamento de saúde. A realidade de combinar o tratamento oncológico com a reconstrução estética, imediata ou precocemente, permite que as pacientes passem por esta experiência de forma menos traumática, mas mesmo assim, a presença e a aceitação por parte do cônjuge de todas as limitações às quais a doença se impõe mostra-se de importância ímpar, pois vai refletir na maior autoestima da paciente quanto em sua maior aceitação. A feminilidade, a sensualidade, a preservação da intimidade na relação quando a mulher se sente acolhida pelo esposo e imperioso para sua recuperação. Ser aceita independente do que da doença possa ocasionar.

Muitos homens se sentem impotentes no enfrentamento dessa situação, mais comumente quando o casal não tem filhos, e aí me pergunto qual o grande apelo desta união se num momento tão delicado onde seu papel como marido se torna de fundamental importância como respaldo afetivo, este cai fora do cenário e deixa emocionalmente e muitas vezes economicamente e socialmente esta mulher talvez no momento mais delicado de sua vida?

Quando eu atendo um paciente antes do início de seu tratamento, dentro de um atendimento chamado acolhimento, costumo perguntar, o estado civil do paciente e logo em seguida num tom descontraído vem a pergunta, caso este paciente seja casado. Bem casado, mal casado ou mais ou menos? As respostas são as mais interessantes, vão desde um “bem casado graças a Deus, quarenta anos de união (observe que não perguntei há quanto anos está casado, mas o tempo de união é sempre decodificado como um pressuposto de boa relação), até um solteiríssimo ou ainda uma exclamação “graças a Deus, viúva”.
Se o paciente já vem acompanhado de seu parceiro de vida e este se mostra interessado e co-participativo, sem dúvida, este respaldo familiar se torna imperativo na maior adesão ao paciente ao seu tratamento e melhor resposta física e emocional.

Quem não se coloca junto a você nas situações mais angustiantes da vida, creio eu, nunca esteve realmente presente. O diagnóstico de um câncer pode trazer mudanças radicais no cenário familiar e muitas delas pode ser o afastamento de um cônjuge.

Vale lembrar que esta situação não se aplica somente ao domínio da área da saúde. Já perceberam nas penitenciárias, como as mulheres se comportam com a prisão dos seus companheiros? Vão às visitas íntimas, se mostram sempre presentes, levam comida, cigarros, etc. Em comparação quando as mulheres são as prisioneiras, costumeiramente seus companheiros somem do cenário.

Parece que o chamado sexo forte se mostra bem frágil em determinadas situações que requerem dele uma presença bem mais marcante, participativa e afetuosa.