Alimentação e câncer – parte 3
   Alimentação e câncer – parte 3

Como pediatra, estou muito acostumada a prescrever vitamina D para minhas crianças. A prescrição é dada até os dois anos de idade tanto para previnir o raquitismo quanto para a saúde geral e o bem-estar. Mas hoje muitos estudos vêm relacionando a deficiência de vitamina D e a diminuição da exposição à radiação solar UVB com o aumento dos riscos de muitos tipos comuns de câncer, diabetes tipo 1, artrite reumatoide e esclerose múltipla e também há indícios de que eles podem estar associados ao diabetes tipo 2 e esquizofrenia.

Recentemente, alguns estudos epidemiológicos observaram que existia uma relação inversa entre a exposição solar e a incidência de câncer. Mas o que isso quer dizer? Na prática, que há maior incidência de câncer nas regiões do mundo com menor quantidade de luz solar durante o ano. Outros estudos correlacionaram baixas concentrações de vitamina D no sangue a maior risco de câncer.

Com essas evidências, os pesquisadores começaram a testar se suplementar a vitamina D iria mudar a incindencia do câncer. Um estudo das universidades de Omaha, Califórnia e Texas, liderados pela doutora Joan Lappe, avaliaram o impacto de suplementação de vitamina D e cálcio durante quatro anos consecutivos na incidência de câncer.
 Esse estudo foi publicado em março na prestigiosa revista médica JAMA, sortearam 2.303 mulheres saudáveis, com idade superior a 55 anos, a dois grupos. O primeiro recebeu suplementação diária de vitamina D associada a cálcio, enquanto as voluntárias do segundo grupo receberam doses aparentemente idênticas de placebo, substância sem efeito biológico.

Os cientistas confirmaram que os níveis sanguíneos da vitamina D nas pessoas que efetivamente receberam a vitamina foram 40% mais altos quando comparados ao grupo placebo. A incidência de complicações ligadas à suplementação de vitamina D e cálcio foi semelhante nos dois grupos; inclusive o aparecimento de cálculos renais foi praticamente igual.


Quando analisaram a influência da suplementação por quatro anos sobre a ocorrência de novos casos de câncer, os pesquisadores não conseguiram demonstrar um impacto significativo entre os grupos. O diagnóstico de câncer foi semelhante nas voluntárias de ambos os grupos de pesquisa.

Os cientistas sugerem que a administração de vitamina D com cálcio não deve ainda ser indicada para as mulheres com idade superior a 55 anos com o único objetivo de reduzir o risco de câncer.


O “status” da Vitamina D nos indivíduos difere por diferentes razões como raça, onde os indivíduos com mais pigmentação da pele estão em maior risco de deficiência.
 Outra pesquisa no banco de dados PubMed resultou em 63 estudos observacionais do estado de vitamina D em relação ao risco de câncer, incluindo 30 de cólon, 13 de mama, 26 de próstata e 7 de câncer de ovário e vários que avaliaram a associação do genótipo do receptor de vitamina D com risco de câncer. A maioria dos estudos encontrou uma relação protetora entre o “status” de suficiência de vitamina D e menor risco de câncer.

A evidência sugere que os esforços para melhorar o status de vitamina D, por exemplo, por suplementação, podem reduzir a incidência de câncer e a mortalidade a um baixo custo e com poucos ou nenhum efeito adverso.
 O câncer de mama tem sido considerado como um dos tipos mais comuns de câncer entre as mulheres em todo o mundo, e as pacientes com neoplasias de mama têm sido relatados com alta prevalência de baixos níveis séricos de 25-hidroxivitamina D.
 As pacientes com câncer de mama, com  níveis mais elevados de vitamina D no sangue, são duas vezes mais propensas a sobreviver à doença do que as mulheres com baixos níveis desse nutriente, relatam pesquisadores da Universidade da Califórnia em artigo publicado na edição de março do periódico Anticancer Research. Além disto, uma meta-análise realizada em 2011 pelos autores do estudo, estimou que um nível plasmático de 50 ng/mL de 25-hidroxivitamina D é associado a um risco 50 por cento menor de desenvolver o câncer de mama.
 Cientistas do Centro de Investigação em Epidemiologia e Saúde da População acompanharam 67.721 pessoas do sexo feminino entre 41 e 72 anos ao longo de uma década. Suas dietas e os níveis de raios ultravioletas de onde viviam foram levados em consideração. Até o fim do período de análise, 2871 desenvolveram a patologia.
 A equipe constatou que habitar regiões com maiores níveis de raios UV está associado a uma probabilidade menor (de quase 10%) de ter o problema em comparação com quem está em locais com taxas menores de UV. Mas o maior efeito protetor foi observado na associação de elevada radiação ultravioleta e mais consumo de vitamina D (alimentos ou suplementos). As chances são até 43% menores.

Dieta rica em vitamina D, mas sem sol, não trouxe benefícios.
 O pesquisador Pierre Engel disse ao jornal Daily Mail que é importante lembrar do crescimento do risco de câncer de pele ao mencionar o sol.
 Testes sugerem que a vitamina D possa ter uma série de efeitos anticâncer, como retardar a propagação das células doentes.
Recentemente, um estudo publicado no renomado British Medical Journal (BMJ) reforçou, por exemplo, o potencial dessa vitamina na prevenção do câncer.
Foi realizado por pesquisadores do “National Cancer Center” do Japão, mostrou que o risco de câncer para as pessoas que têm níveis suficientes de vitamina D, o risco de desenvolver câncer é aproximadamente 20% menor do que em pessoas que tem deficiência de vitamina D.
A equipe acompanhou um grupo de homens e mulheres no Japão por uma média de 16 anos, até 2009, utilizando amostras de sangue. As pessoas tinham idade entre 40 e 69 anos. Em aproximadamente 8.000 indivíduos, os pesquisadores examinaram a relação entre a concentração de vitamina D no sangue e a ocorrência de câncer.
 Entre todos os tipos de câncer o câncer de fígado é o que apresentou a maior queda no risco.


O diferencial da pesquisa é que foram avaliados 33 736 homens e mulheres do Japão. Até agora, a maioria dos trabalhos levava em conta populações europeias e americanas. E, como a presença de vitamina D no organismo pode variar de acordo com a etnia, é importante verificar se os mesmos efeitos são observados em todo mundo.
Toda essa gente foi acompanhada por mais ou menos 16 anos, período no qual foram detectados 3 301 novos casos de câncer.
 Após ajustar diversos fatores de risco para a doença (como idade, peso, tabagismo e por aí vai), os experts concluíram que os maiores níveis de vitamina D estavam associados a uma redução de aproximadamente 20% na probabilidade de desenvolver qualquer tipo de câncer.
 Para tumor de rim, o risco caía de 30 a 50%, sendo que o impacto protetor ficou mais evidente em homens do que em mulheres. Já em relação a tumores de pulmão e próstata não foi encontrado nenhum elo. Uma boa notícia é que o grupo com ótimas doses de vitamina D no sangue não apresentou aumento de risco para nenhum tipo de câncer.
 O estudo sugere que nenhum benefício adicional seria conseguido com uma alta concentração de 25-hidroxivitamina D. Juntamente com os resultados de diversos ensaios publicados na literatura, mostram que elevar uma baixa concentração de 25-hidroxivitamina D para uma concentração intermediária pode aumentar proteção contra o risco de câncer, enquanto que aumentá-la para uma maior concentração (provavelmente acima de 80 nmol / L) pode não resultar em benefícios, sendo contraproducente.


Embora os achados deem mais força ainda para considerarmos a vitamina D uma parceira na prevenção dessa doença, os estudiosos ressaltam que pode existir um efeito-teto. Ou seja, a partir de determinada quantidade, o indivíduo não experimentaria benefícios extras. Em resumo, não adiantaria torrar no sol nem engolir um monte de cápsulas.
 Até porque o excesso da molécula pode, sim, causar algumas complicações. Entre elas, o acúmulo de cálcio nas artérias, que estaria por trás de infartos e derrames.
 Além disso, os especialistas frisaram, em comunicado divulgado pelo BMJ, que são necessários mais estudos justamente para entender qual seria essa concentração capaz de blindar nosso corpo contra o surgimento de tumores. Enquanto isso não ocorre, 15 minutinhos ao sol já parecem suficientes para angariar muitas vantagens.


Resumindo, vamos para as perguntas:


1. O que é a vitamina D?


Apesar do nome, na verdade, a vitamina D é um hormônio, que ajuda na saúde dos ossos, sendo protetor, por exemplo, contra a osteoporose.


2. Quais são os riscos de excesso desse hormônio?


O excesso desse hormônio no organismo pode acarretar alguns efeitos colaterais, como insuficiência renal e cálculo renal, perda de apetite e irritabilidade.


3. Como saber se devo repor vitamina D?


Para confirmar essa necessidade, o especialista deve solicitar um exame de dosagem dos níveis do hormônio. Ele também deve avaliar pessoas do grupo de risco, isto é, aqueles com descendência européia, ou que ficam muito vermelhas quando expostas ao sol, assim como pacientes que já tiveram câncer de pele (que podem repor a vitamina D, por via oral).


4. Qual é a forma ideal de repor vitamina D: sol, vitamínicos ou alimentos?


A exposição ao sol por dez minutos, três dias por semana, é suficiente para manter os níveis de vitamina D adequados, por exemplo, para o cidadão paulistano. Deve-se também seguir sempre a orientação de um especialista, que poderá indicar vitamínicos, quando necessário.


5. Existe relação entre os níveis insuficientes de vitamina D e o câncer?

Alguns estudos pré-clínicos e especialistas sugerem fortemente que a deficiência de vitamina D aumenta o risco de desenvolvimento do câncer e que adicionar suplementos de vitamina D pode ser uma maneira econômica e segura para reduzir a incidência de câncer e melhorar o prognóstico e/ou o desfecho da doença.


6. De que forma a vitamina D agiria na prevenção do câncer?


A vitamina D tem sido conhecida por seu papel fisiológico na homeostase mineral através de suas ações sobre os intestinos, rins, glândulas paratireoides e osso. Contudo, as observações recentes dos efeitos anticancerígenas da forma bioativa da vitamina D (1,25 [OH] 2D3) numa ampla gama de tumores são pouco compreendidas ainda.


7. Quais cânceres seriam mais afetados pela falta de vitamina D?


O conhecimento existente, muitas vezes fragmentado, seria das vias de sinalização que levam à diferenciação induzida pela vitamina D de células do câncer de cólon, mama, próstata, carcinoma de células escamosas, osteossarcoma e leucemia mieloide.


8. Quando a suplementação é indicada?


Deve se suplementar, quando há níveis séricos insuficientes e ou deficientes. Existe um conjunto considerável de evidências de que as principais células cancerosas humanas podem ser candidatas adequadas para a quimioprevenção ou terapia de diferenciação com vitamina D. No entanto, estudos adicionais são necessários para compreender completamente os mecanismos subjacentes, a fim de melhorar as abordagens terapêuticas.



Além do sol e de suplementos vitamínicos, é possível obter vitamina D por meio do consumo de alimentos com maiores níveis desta substância, como bacalhau, salmão, leite e gema de ovo. Porém, essa forma é a menos eficaz quando comparada às demais.

Futuro

Um grande estudo a longo prazo financiado pelo Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental (NIEHS) está sendo realizado para encontrar as causas do câncer de mama. Conhecido como "Sister Study”, conta com 50 mil mulheres com câncer de mama. Este estudo seguirá essas mulheres por pelo menos 10 anos e coletará informações sobre genes, estilo de vida e fatores ambientais que possam causar o câncer de mama. Em um ramo desse estudo está previsto examinar as possíveis causas do câncer de mama precoce.


Conclusão

Dicas, mitos e sugestões sempre circulam na nossa sociedade, especialmente em relação à alimentação. Não podemos car vulneráveis e acatar tudo o que nos é mostrado. Procure tirar as dúvidas com seu médico ou nutricionista, por- que só ele saberá lhe orientar de forma correta. 


Referências

  • https://familia.com.br/6591/tratamento-do-cancer-6-alimentos-a-evitar-quando-voce-tem--cancer-de-mama/
  • http://centrodeoncologia.com/noticias/informacoes-para-pacientes/alimentacao/alimentacao--o-que-fazer-quando-ocorre-enjoos-vomitos-e-outras-disfuncoes-intestinais/
  • https://www.vencerocancer.org.br/dicas-e-noticias/nutricao/e-permitido-comer-carne-de-porco-durante-o-tratamento/
  • http://www.minhavida.com.br/alimentacao/materias/17557-a-alimentacao-saudavel-do-paciente-com-cancer/
  • https://www.vencerocancer.org.br/dicas-e-noticias/nutricao/mitos-e-verdades-da-alimentacao-do-paciente-em-quimioterapia/
  • https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/bem-estar/vitamina-d-e-sol-diminuem-risco-de-cancer-de-mama,7c688c3d10f27310VgnCLD100000bbcceb0aRCRD.html

  • The Role of Vitamin D in Cancer Prevention. 
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1470481/

  • Sunlight and vitamin D for bone health and prevention of autoimmune diseases, cancers, and cardiovascular disease.
http://ajcn.nutrition.org/content/80/6/1678S.long

  • The Correlation of Plasma 25-Hydroxyvitamin D Deficiency With Risk of Breast Neoplasms: A Systematic Review 
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5038833/

  • https://saude.abril.com.br/medicina/vitamina-d-reduz-risco-de-cancer-diz-estudo/

  • Plasma 25-hydroxyvitamin D concentration and subsequent risk of total and site specific cancers in Japanese population: large case-cohort study within Japan Public Health Center-based Prospective Study cohort – Sanjeev Budhathoki, Akihisa Hidaka, Taiki Yamaji, Norie Sawada, Sachiko Tanaka,Aya Kuchiba, Hadrien Charvat, Atsushi Goto, Satoshi Kojima, Natsuki Sudo, Taichi Shimazu, Shizuka Sasazuki, Manami Inoue, Shoichiro Tsugane, Motoki Iwasaki – BMJ 2018; 360 doi: https://doi.org/10.1136/bmj.k671 (Published 07 March 2018).